Um espetáculo de aula
O Brasil é um milagre. Foi assim que o escritor Ariano Suassuna iniciou o quarto e último dia do XIX Congresso Brasileiro de Magistrados, que aconteceu em Curitiba, entre os dias 15 e 18 de novembro. Diferente dos outros dias, em que os acalorados debates muitas vezes dividiram as opiniões dos magistrados, a reação do público à aula-espetáculo do escritor foi uma unanimidade.
Irreverente, aos 79 anos, Suassuna surpreende pela energia e pelo declarado amor à vida."Eu não pretendo morrer não", brinca quando se refere à morte, deixando claro que ainda tem muito o que realizar e muitos sonhos para ver transformados em realidade. Formado em Direito, "por falta de opção", ele provocou risos na platéia ao relembrar a falta de vocação da breve carreira como advogado. Mas engana-se quem pensa que a aula do escritor resume-se às risadas inevitáveis provocadas pelas tiradas geniais do mestre, em vários momentos ele faz leituras críticas e ácidas de assuntos que ocupam a ordem do dia. Da crise do gás boliviano à atuação do governo Bush, nada passa despercebido pela análise deste paraibano, radicado em Pernambuco. Em relação ao Poder Judiciário, Suassuna diz que os magistrados são responsáveis por uma tarefa das mais difíceis e ingratas. "Eles precisam fazer justiça em um país tremendamente injusto, em que as os brasileiros estão separados por um abismo", reflete. Cultura brasileira O foco da exposição do escritor, no entanto, é a cultura brasileira. A relação entre o barroco e o popular e seus reflexos na expressão cultural nacional é apresentada por ele com maestria. Fazendo uma reconstrução da história cultural do país, ele destacou que sempre foi recorrente, para o povo brasileiro, ter orgulho das influências estrangeiras (inicialmente portuguesas, logo depois francesas e atualmente norte-americanas) e vergonha das culturas indígena, sertaneja e negra, matrizes genuínas da formação cultural brasileira.Otimista, o autor de sucessos como A Pedra do Reino e Auto da Compadecida, terminou seu espetáculo reafirmando sua fé na viabilidade do Brasil e da cultura popular. "A cultura é alma e a honra de um país e por isso não podemos nos envergonhar dela."
Missa
Quando chegar a Recife a noite deste sábado, Ariano Suassuna promete que vai mandar rezar uma missa. Antes de vir a Curitiba para participar do XIX Congresso, o escritor quase desistiu a viagem com medo de ter que enfrentar a crise que se abateu nos aeroportos do país.
Como deu sorte e não sofreu com atrasos, ele confirmou cumprir a promessa. "Mas só se der tudo certo na volta", explicou, dando mais uma prova de seu bom humor.




