Vivenciar sentimentos que oscilam entre tristeza e alegria faz parte do dia a dia de todo profissional que, por força do ofício, precisa lidar com os dramas humanos, interferir nos destinos. No Judiciário, talvez os que mais encarem essa peculiar rotina sejam os magistrados que atuam nas varas de Infância e Juventude, como Katy Braun do Prado, que há sete anos, dos 17 de profissão, trabalha nessa área.

“É uma área em que sentimentos e emoções contraditórios são experimentados. De um lado, o  sofrimento e a angústia por nos depararmos com crianças vítimas de todo tipo de violação de direitos e de outro, a satisfação de perceber que essas mesmas crianças alcançaram condições dignas de existência por meio da nossa intervenção”, resume Katy, que é titular da Vara da Infância, Juventude e do Idoso de Campo Grande (MS).

Por suas mãos já passaram cerca de nove mil e quinhentos processos. Muitas dessas crianças e adolescentes, hoje adultos, cultivam a amizade e a gratidão pela figura que um dia as ajudou a fazer a transição de um presente sombrio para um futuro iluminado.

Exemplo

Beatriz Aparecida dos Santos teve o primeiro contato com a juíza aos 15 anos. Desde os seis, já oscilava entre viver em um abrigo e com a família. Passou por todo tipo de violência. Agora, aos 22 anos, casada e mãe de dois filhos, Beatriz conta que a juíza fez toda a diferença para que ela pudesse crescer e passar por tudo de cabeça erguida. “Minha madrasta foi denunciada por exploração sexual, meu pai saiu das drogas e a gente está feliz graças à juíza, que também nos apoiou muito. Toda vez que precisei de ajuda liguei, conversei e ela sempre me ajudou”, revela.

Mas nem todas as histórias têm um desfecho positivo, como a de Beatriz. A juíza precisa conviver com situações que o próprio dever impõe. A legislação protetiva diz que se deve esgotar as tentativas de manutenção das crianças em família extensa antes de pensar em uma adoção. E, aí, pode vir um problema. “Diariamente eu preciso obedecer essa norma e entregar crianças para parentes, mesmo tendo aquela convicção íntima de que esses parentes não são a melhor opção para a criança, inclusive com expectativa de que dentro de pouco tempo sejam por eles devolvidas ou maltratadas”, confidencia.

Perguntada se pensa em mudar de área, Katy é categórica: jamais. E revela o que a impulsiona a acordar todas as manhãs com ânimo renovado para realizar a difícil tarefa: vocação e amor.

Malcia Afonso

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