AMB – Por que a senhora resolveu pesquisar o tema adoção?
Ângela Bastos –
A idéia do documentário surgiu a partir de um outro, produzido no ano passado, Flor de pessegueiro, onde há voz para mães que tiveram filhas vítimas de violência sexual. Esse filme foi apresentado à Associação dos Magistrados Catarinenses (AMC) e os juízes me convidaram a exibi-lo no Congresso Estadual de Magistrados, em Concórdia (SC), em dezembro do ano passado. Eles gostaram muito do enfoque, pois tratava de um tema duro de forma delicada, e me perguntaram se o tema adoção poderia render algo parecido.

AMB - E qual foi o passo seguinte?
Ângela Bastos -
Feito o convite, parti atrás para tentar descobrir mais, pesquisar o assunto, desvendar uma realidade que ainda era superficial para mim. Tive nisso o apoio do Tribunal de Justiça local, que me facilitou muito o acesso às crianças, aos adolescentes e aos abrigos, desburocratizando o processo. Também me apoiei em uma pesquisa, realizada em 2004 pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e o Conselho Nacional da Criança e do Adolescente (Conanda), e coordenada por Enid Rocha Andrade da Silva.

AMB – Que dificuldades a senhora encontrou?
Ângela Bastos –
Não houve dificuldades de acesso, exatamente por estarmos sempre acompanhados da equipe do TJ. O problema é tratar esse tema. É muito pesado. Há muita solidão, muito abandono, muita dor na fala das crianças abrigadas. Eu mudava, às vezes, a locação do documentário somente para atender ao apelo das crianças e dos adolescentes. Umas queriam que fosse filmado nos trilhos de uma ferrovia que passa perto do abrigo, a bordo de um trenzinho, outras em um jardim, na praia, algumas nos próprios quartos.

AMB – Quais foram os momentos mais emocionantes durante a produção do filme?
Ângela Bastos –
Quando colhia as informações. Uma coisa é você saber sobre crianças que estão longe de suas famílias, abandonadas, vivendo em abrigos. Outra é ouvi-las falando, perceber seus sonhos sendo desfeitos, ouvir delas que, apesar de todos os problemas, sonham com uma família — que pode ser a de origem, mesmo tendo sofrido maus-tratos, abandono, negligência, ou uma nova, via adoção. São histórias muito fortes. Ninguém está em um abrigo à toa. Todos carregam um peso emocional muito grande. A idade é tenra, mas o problema deixa marcas profundas.

AMB – Qual é a sua intenção com o documentário?
Ângela Bastos –
O que o documentário faz é levar as pessoas para dentro dos abrigos, para conhecer a realidade das crianças e especialmente dos adolescentes, que ficam anos a fio vivendo ali. Como esses meninos não fazem rebeliões, não pegam reféns, são silenciosos, todos ignoram as histórias deles. O silêncio faz com que não sejam notados.

País de contrastes
São discrepantes as realidades vividas nos estados brasileiros quando se fala em adoção. Em Araranguá, município situado no sudeste de Santa Catarina, o juiz da Vara Criminal e da Infância e Juventude Júlio César Machado Ferreira de Melo não encontra dificuldades, nem do ponto de vista jurídico e muito menos do estrutural. Aqui os processos andam rápido. É tudo centralizado e por isso funciona bem.” De todo modo, ainda é difícil encontrar espaço físico para abrigar os meninos. “De fato, faltam abrigos para aceitar as crianças”, ressalva o juiz.

O contraste está quando a realidade catarinense é comparada com a amanuense. “A maior dificuldade que nós enfrentamos é estrutural, no corpo técnico”, explica Rafael de Araújo Romano, juiz da Infância e da Juventude Cível em Manaus.

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