Em Salvador, Collaço defende mudanças no sistema de promoção de juízes
“O atual sistema de promoção de juízes por merecimento precisa evidentemente de mudanças, pois um Poder sem controle tende inegavelmente ao abuso”. A afirmação foi feita pelo presidente da AMB, juiz Rodrigo Collaço, em palestra proferida na manhã desta terça-feira, dia 9 de agosto, no segundo dia da Semana do Magistrado 2005, realizada no Fiesta Bahia Hotel, em Salvador (BA). O evento tem o apoio da AMB e foi promovido pela Associação dos Magistrados da Bahia (Amab), presidida pelo vice-presidente de Valorização Profissional e Defesa das Prerrogativas da AMB, juiz Rolemberg Costa. O encontro, que começou na noite de ontem, dia 8, reunirá até esta quarta-feira, dia 10, cerca de 150 magistrados de todo o Estado.
Segundo Collaço, o modelo vigente de promoção de magistrados nos tribunais, feito por meio de voto secreto e imotivado, permite que as pessoas responsáveis pelo julgamento das carreiras dos juízes ajam sem nenhum tipo de controle, o que pode caracterizar uma grande concentração de poder, além de desvalorizar a magistratura de 1º grau. “Imaginem se pudéssemos decidir uma causa sem nenhum tipo de fundamentação? Como se comportariam as partes e os advogados que ficassem insatisfeitos com a decisão?”, indagou à platéia, comparando o caso com o processo de escolha dos magistrados por merecimento feito hoje no Brasil.
Para o presidente da AMB, esse sistema desrespeita alguns princípios básicos do Direito, como o da publicidade, o da legalidade e o da impessoalidade, além de ir de encontro à Constituição Federal. “É absolutamente impossível promover juízes por merecimento sem fundamentação. O sistema usado hoje nos tribunais brasileiros não tem fundamento legal, sendo baseado apenas na tradição brasileira”, afirmou.
A AMB sustenta que o processo de seleção dos magistrados nos tribunais deve ser feito por meio de voto aberto e fundamentado. Em julho, a entidade entregou ao conselheiro Oscar Argollo, do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), requerimento solicitando ao novo órgão fiscalizador que recomende aos tribunais mudanças nos procedimentos de promoção. O documento será votado pelo CNJ na próxima terça-feira, dia 16 de agosto, a partir da 14 horas.
No final de sua palestra, Collaço disse que se o CNJ posicionar-se favoravelmente ao requerimento da AMB, será muito positivo para a magistratura nacional. “Esse sistema tem servido há muito tempo para oprimir os juízes brasileiros e queremos nos libertar dele”, completou.
Efetividade da Justiça, Ética e Mídia
A conferência de abertura da Semana do Magistrado 2005, sobre o tema “A luta pela efetividade da Jurisdição”, foi proferida pelo ministro do Superior Tribunal de Justiça César Asfor Rocha. Depois de enfatizar que a Bahia é um Estado de reconhecida atuação jurídica, Rocha salientou a importância de se fazer um evento como esse para debater um dos principais problemas enfrentados pelo Poder Judiciário nacional: a morosidade.
Para isso, o ministro defende a mudança de alguns paradigmas, inclusive na própria conduta do magistrado contemporâneo. “A cada dia o Judiciário é mais procurado pela sociedade. Exemplo disso é a grande quantidade de processos julgada pelo STJ. Só este ano os ministros da Corte deverão julgar 270 mil processos”, relatou. “Hoje o que o jurisdicionado quer é a prestação jurisdicional. Quer que o processo seja julgado logo”, completou.
Ainda em sua palestra, o ministro ressaltou a necessidade de se manterem os modelos vigentes de escolas de magistratura ligadas aos tribunais ou às associações de magistrados. Segundo ele, essas instituições, ao contribuírem com a formação e o aperfeiçoamento dos juízes, também contribuem para que os serviços prestados pela Justiça sejam mais rápidos e eficientes.
“Esses modelos de escolas não devem ser suprimidos pela Escola Nacional de Formação e Aperfeiçoamento de Magistrados (Enfam). Temos que respeitar as idiossincrasias e peculiaridades de cada Estado, mas deve haver um órgão para uniformizar e padronizar o funcionamento dessas instituições”, ressaltou.
Além de Collaço, a jornalista da TV Câmara Claudia Lemos foi palestrante na manhã desta terça-feira, quando abordou o tema “Ética, mídia e Justiça”. Citando o renomado jornalista e escritor Cláudio Abramo, no livro A Regra do Jogo – A Ética do Marceneiro e a Ética do Jornalista, ela defendeu uma ética igual para todos os cidadãos.
Amanhã, dia 10, às 9 horas, o procurador-chefe da Procuradoria Federal junto a Superintendência Nacional de Previdência Complementar (Previc), Daniel Pulino, fará a palestra “A reforma da Previdência e as repercussões na carreira da magistratura”. Em seguida, o ex-presidente da AMB e desembargador do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul Claudio Baldino Maciel abordará o tema “O juiz como agente de transformação social”.




