Clube de Leitura discute o que real e o que é ficção no clássico japonês que questiona o verdadeiro valor da vida

"O [Yukio] Mishima foi um autor que, desde os anos quarenta, desenvolveu o seu texto num limite muito estreito entre o que era ficção e o que era sua vida pessoal. Então, entender um pouco da vida do Mishima é fundamental para entender a constituição dos personagens."

Foi assim que o palestrante Rafael Bassi, especialista em história cultural e filosofia contemporânea, mestre em escrita criativa e doutor em letras pela PUC do Rio Grande do Sul, iniciou sua análise de Vida à Venda, do autor japonês Yukio Mishima. Ao lado do Desembargador Franco Cocuzza, Bassi mediou o debate do Clube de Leitura da AMB realizado na última quarta-feira (1º).

A obra discutida acompanha a trajetória da personagem Hanio Yamada, um jovem copywriter de uma agência de publicidade, em Tóquio, que vende a própria vida num anúncio de jornal após uma tentativa de suicídio.

“Vendo minha vida. Use-a como quiser. Homem de 27 anos. Garanto sigilo. Tranquilidade absoluta.” — Anúncio divulgado por Hanio, personagem da obra de Mishima.

Originalmente publicado em folhetim, e lançado no Brasil pela editora Estação Liberdade, Vida à Venda é o "livro mais leve" de Mishima, na visão de Bassi. Para ele, a obra aborda temas como a morte, suicídio, tradição e modernidade com um tom mais irônico e satírico do que outras produções do escritor.

Um dos últimos trabalhos de Mishima, o romance captura o leitor em uma narrativa complexa sobre o verdadeiro valor da vida, combinando elementos humorísticos, reflexivos, sensuais, emocionais e críticos à sociedade e aos padrões por ela estabelecidos.

O autor: Yukio Mishima

Nascido em Tóquio, em 1924, em uma família de samurais, Mishima começou na literatura aos 19 anos e, aos 25, com a publicação de Confissões de uma máscara (1949) e Cores proibidas (1951), consolidou sua carreira entre os grandes autores de sua geração.

Conhecido por explorar tabus temáticos, como homossexualidade e culto ao corpo masculino, Mishima corriqueiramente misturava influências ocidentais e orientais, sempre projetando a própria vida nos textos produzidos. Contudo, tornou-se cada vez mais crítico à ocidentalização do Japão no pós-guerra, desenvolvendo um nacionalismo extremo.

Em 1968, fundou a Tatenokai (Sociedade do Escudo), uma milícia privada leal ao imperador e dedicada a preservar os valores tradicionais japoneses. Dois anos depois, com apoio de quatro membros do grupo, invadiu um quartel do Exército japonês, com o objetivo de aplicar um golpe de Estado e restaurar o poder imperial. Entretanto, a tentativa restou frustrada, levando o escritor a cometer o seppuku, suicídio ritualístico samurai.

Mishima tinha uma visão idealizada do Japão tradicional e dos valores samurais, os quais entendia estarem ameaçados pela ocidentalização e pela decadência moral do pós-guerra. O fascínio refletiu-se em suas obras, que o levaram a ser nomeado por três vezes ao Prêmio Nobel da Literatura.

Os encontros do Clube de Leitura da AMB são realizados via Zoom, sempre às quartas-feiras, às 19h. As informações detalhadas de cada edição são divulgadas mensalmente no site da AMB.

Para participar, é necessário se inscrever pelo e-mail: [email protected].

Assista ao último encontro do Clube de Leitura da AMB: 

Camilla Lucena (ASCOM/AMB)

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