“Caminhada Negra”: resgate e reconhecimento da cultura pelo Brasil

“História que os livros não contam”, diz Renata Gil
Para o Dia da Consciência Negra (20), a Associação dos Magistrados Brasileiros (AMB) mobilizou associados para participar da “Caminhada Negra”. O evento ocorreu em nove cidades e reuniu centenas de pessoas. O objetivo é resgatar a história e a cultura do povo afrodescendente no Brasil e, com isso, manter viva a reflexão de que o país necessita, de uma vez por todas, eliminar toda e qualquer forma de racismo e discriminação.
A rota desenhada pela organização do evento para esta caminhada compõe uma jornada que costurou fatos importantes ao longo de mais de cinco séculos da história do negro na formação da nação brasileira.
“O Dia da Consciência Negra é importante para todos os magistrados e para o povo brasileiro. Nós da AMB e todas as associações afiliadas resolvemos fazer um trabalho diferente. Foi um dia em que tivemos a oportunidade de conhecer personagens que não estão nos livros.”, afirmou a presidente da AMB, Renata Gil, ao participar da atividade em São Paulo, onde o grupo iniciou a visitação da Praça da Liberdade.
Para a diretora de Promoção da Igualdade Racial da AMB, Flávia Martins de Carvalho, o evento foi extremamente importante e representativo. Segundo a magistrada, a caminhada pretendeu fortalecer a memória em relação às contribuições do povo negro para o Brasil, apagadas em decorrência do racismo.
“Os participantes tiveram contato com uma história que foi apagada. Houve depoimentos de pessoas que já passaram pelos locais por onde percorremos e nunca se deram conta daqueles símbolos e manifestações culturais”, afirmou.
A caminhada aconteceu simultaneamente também em Curitiba (PR), Campo Grande (MS), Olinda (PE), Ouro Preto (MG), Porto Alegre (RS), Rio de Janeiro (RJ), Salvador (BA) e São Luís (MA).
“A gente sabe de a importância de a gente trazer esse debate constante dentro do meio jurídico, dentro da magistratura. É uma pauta civilizatória”, salientou a presidente da Apamagis, Vanessa Mateus.
Em todas as localidades, além do tour, houve rodas de conversas e expressões culturais, por meio da dança e da música. Além de magistrados e dependentes, autoridades estrangeiras participaram. O cônsul do Senegal, Ozeil Moura, esteve na caminhada em Curitiba e o embaixador da África do Sul, Vusi Mavimbela, em Salvador.
“Existem muitas conexões entre esse lugar e o continente africano. Você vê que existe muita conexão quando andamos pelas ruas aqui em Salvador. Esta é a história do nosso povo que veio do continente africano”, enalteceu o embaixador.
A presidente Renata Gil destacou o dever de reparação da história do povo negro. “A história, que os livros não contam, e não está nas pinturas. A AMB, de forma inédita, também está fazendo este resgate e tocando o coração de os juízes que participaram desta caminhada. Todos estão encantados. Espero que, a partir de agora, nós façamos outros movimentos desse resgate, dessa dívida que a gente tem com o povo negro”, finalizou Renata Gil.
Tour Virtual
As atividades em comemoração à data não se limitaram à caminhada. Nesta segunda-feira (22), os magistrados participaram de um Tour Virtual, onde conheceram um pouco da origem e curiosidades sobre as localidades, que sediaram o evento no último sábado.
Responsável pela apresentação, o proprietário do Guia Negro, jornalista e pesquisador da história e da cultura negra Guilherme Soares Dias contou que o Brasil recebeu grande contingente de escravizados e, hoje, conta com 56% da população negra, considerada a maior fora do continente africano, sendo São Paulo a cidade com o percentual mais alto.
Ao longo da fala, ele destacou locais que carregam fortemente a cultura negra como Pelourinho (Salvador), Sociedade Protetora dos Desvalidos (Salvador), Pequena África (Rio de Janeiro), Madureira (Rio de Janeiro), Bairro da Liberdade (São Paulo), Bairro do Bixiga (São Paulo), Museu da Abolição (Olinda-PE), Terreiro de Xambá (Recife-PE), Bairro da Liberdade (São Luis/MA), Tambor de Crioula (São Luís/MA), Araxá (Minas Gerais), Quilombo Urbano (Campo Grande/Mato Grosso Sul), Praça Zumbi dos Palmares (Curitiba/PR), Museu de Percurso do Negro (Porto Alegre/RS), Mercado Público de Porto Alegre (Porto Alegre/RS) e outros.
Guilherme Soares deu ênfase ainda a nomes de negros que fizeram parte da luta pela liberdade e, mesmo assim, com pouca visibilidade no que diz respeito à temática como Luis Gama, baiano e maior abolicionista da história; Tia Eva (Eva Maria de Jesus), verdadeira fundadora de Campo Grande (MS); dos mineiros Aleijadinho, escultor, entalhador e arquiteto; e Chico Rei, negro que chegou ao Brasil como escravo, num navio negreiro, e se tornou lenda e herói em Ouro Preto.
“Muitas dessas coisas ainda estão muito na oralidade, temos poucos registros, poucos documentos e mídia. Isso deve muito ainda por conta de um racismo estrutural na sociedade brasileira. Contar essas histórias é uma forma de mantê-las vivas”, afirmou Guilherme.
A AMB contou com a parceria da plataforma Guia Negro e das associações estaduais de magistrados: Associação dos Magistrados da Bahia (AMAB), Associação dos Magistrados Catarinenses (AMC), Associação dos Magistrados do Maranhão (AMMA), Associação dos Magistrados de Mato Grosso do Sul (AMANSUL), Associação dos Magistrados do Estado do Pará (AMEPA), Associação dos Magistrados do Estado de Pernambuco (AMEPE), Associação dos Magistrados do Estado do Rio de Janeiro (AMAERJ), Associação Paulista de Magistrados (APAMAGIS), Associação dos Magistrados Trabalhistas da 2ª Região (AMATRA 2) e Associação dos Magistrados Trabalhistas da 22ª Região (AMAPRA 22).
Dia da Consciência Negra
A escolha do dia 20 tem como referência o dia de morte de Zumbi dos Palmares no dia 20 de novembro de 1695, considerado o maior líder do Quilombo dos Palmares, que País simbolizou a luta do negro contra a escravidão que sofriam os africanos. A data foi oficializada por legislação e, por isso, é feriado no país.
“Que nós possamos estar juntos não apenas no 20 de novembro. No que depender de mim, eu saio daqui com o compromisso de propor a inclusão desse tour virtual para as escolas de magistratura para que a gente possa ampliar esse conhecimento dentro da magistratura. Tenho certeza de que não estarei sozinha. Ano que vem estaremos aqui com o resultado de um trabalho do ano inteiro”, finalizou a diretora da AMB, Flávia Martins.
Daiane Garcez (Ascom)




