A praga da corrupção
Leia abaixo artigo do advogado Regis Fernandes de Oliveira, publicado no sábado, 24 de junho, no Jornal da Cidade, de Bauru (SP). Desembargador aposentado do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP), Regis de Oliveira já foi presidente da Associação dos Magistrados Brasileiros (AMB).
A praga da corrupção
Sábado, 24 de junho de 2006
Narra a fábula que as rãs viviam incomodadas por viverem sempre no charco, em monotonia perpétua, sem qualquer fato que as pusessem alegres. De repente, após assembléia, resolveram pedir a seus deuses que lhes desse um líder, um rei, junto ao qual pudessem efetuar reclamações e organizarem-se para festas constantes. Alguém que lhes desse esperança de uma vida melhor e que pudesse desenvolver uma série de políticas para melhorar suas vidas.
Pediram quatro vezes até que foram atendidas e foi-lhes dada uma serpente, como rei.
A tragédia não ocorreu de repente. Primeiramente, foram promessas que envaideceram as rãs. Muitos empregos seriam abertos e todas teriam muita atividade. O comércio e a indústria cresceriam fantasticamente, de forma a permitir não só o emprego prometido, mas o milagre do desenvolvimento estava perto de ocorrer. O contato com outros charcos aconteceria de forma mais freqüente e um comércio constante seria desenvolvido. Internacionalmente, seriam líderes de seu continente e haveria relações com todos os outros pedaços de terra. Seria até pleiteado um cargo no conselho de segurança de todos os pântanos, de forma a outorgar mais prestígio àquela nação.
As rãs deliciaram-se.
Haveria maior distribuição de renda, de forma a levar à redução das desigualdades e as rãs menos favorecidas poderiam, ao menos, ter direito a alimentar-se. A fome seria diminuída. A segurança aumentaria. Os serviços de saúde ampliados e todos poderiam ser atendidos nos estabelecimentos públicos com rapidez.
Os setores produtivos seriam atendidos em suas reivindicações e o crédito seria farto, havendo crescimento da produção agrícola e da pecuária, uma vez que os juros para os financiamentos seriam pequenos.
As rãs rejubilaram-se.
Demais disso, haveria incessante perseguição à corrupção, praga que, até então, assolava a cidade dos batráquios. Quem ousasse corromper-se seria preso. O Congresso que fazia as leis seria intocável e incorruptível e suas decisões seriam tomadas sem intervenção. O partido que pleiteou o rei manteria sua integridade ética.
As rãs deliraram.
O rei, que de início se comprometera com muitas coisas, passou a ser servido por elas e gostou das mordomias que o cargo oferecia. Os assessores imediatos a ele mentiam, fazendo crer que todos estavam satisfeitos com as providências que nunca foram tomadas. Os subalternos curvavam-se à sua passagem, em sinal de profundo respeito, o que fazia com que o ele se vangloriasse.
O rei, que foi dado ao charco, era uma serpente que, vaidosa e gulosa, já pagando seu pecado original, por ter seduzido a mulher e traído o homem, devorou todas as rãs.
Moral da história: é melhor viver sem um rei que ter um rei qualquer.
A caixinha de Pandora aberta por ele soltou no ar todas as maldades, intrigas, desilusões, promessas não cumpridas, pragas e corrupção.
Dizem que ainda sobrou a esperança. Só que ainda estão atrás dela.
O autor, Regis Fernandes de Oliveira, é advogado, professor titular de Direito Financeiro da Universidade de São Paulo e desembargador aposentado do TJ/SP. Foi presidente da Federação dos Magistrados Brasileiros, da Associação dos Magistrados Brasileiros e da Associação Paulista dos Magistrados, deputado federal e vice-prefeito de São Paulo. É sócio titular do Escritório Regis de Oliveira, Corigliano e Benetti Advogados.
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