A política ideal e as tramas da realidade
A Gazeta Mercantil publicou nesta terça-feira, 18 de abril, artigo de Regis Fernandes de Oliveira, ex-presidente da Associação dos Magistrados Brasileiros (AMB). O texto discorre sobre as relações políticas e seus jogos, conveniências, vaidades e utopias. Leia abaixo a íntegra do artigo.
A política ideal e as tramas da realidade
A democracia pressupõe decisões majoritárias que respeitem a minoria e preserve as regras do jogo. Ocorre que, a todo instante, a maioria no poder as altera. A dominação dos partidos políticos impõe prevalência da Executiva Nacional sobre todos os demais órgãos partidários.
Fica difícil comparar a política ideal, aquela que sempre me moveu, com as tramas reais. Você constrói valores a vida toda, vive dentro deles, pauta sua conduta por eles. Você percebe que a sociedade ideal, sem preconceitos, maravilhosamente imaginada, cultuada como ponto central de redução das desigualdades, não existe. O que ocupa o lugar, como diz Vargas Llosa é uma rotina de "manobras, intrigas, conspirações, pactos, paranóias, traições, muito cálculo, não pouco cinismo e toda sorte de malabarismo" (El pez en el agua). Você constata que móvel do político é o poder. É permanecer nele e conquistá-lo a qualquer custo. É não ver limites, nem barreiras à moral.
Inicia-se com sentimentos altruistas, com o objetivo de alterar a sociedade, de mudar os esquemas caquéticos do jogo do poder, de buscar a redução das desigualdades. Com o tempo, vem a frustração. Percebe-se que não é fácil mudar; que tudo é troca; que os interesses são os mais espúrios possíveis.
A busca por espaços é incessante. O vaivém das conveniências é constante. A vitrine das vaidades é curiosa. A venda de prestígio é constante. A permanência na sombra, no bastidor, a revelar um jogo pessoal e particular de conveniências. Jamais a busca do interesse público.
O povo só conta na hora do voto. Os projetos rotulados de "populares" são conveniências ocasionais e demagógicas. A pressão de grupos interessados é rotineira. O acúmulo da sedução e da bajulação atinge as raias do irritável.
No dia seguinte às eleições, as portas dos palácios, secretarias, repartições, fecham-se. Os cabos eleitorais já não são recebidos e as promessas são escamoteadas. Compromissos são desfeitos. As pessoas vão a hospitais e não são atendidas; vagas nas escolas escasseiam; repartições voltam a ser sinecuras; empregos tornam-se privilégios de poucos e familiares ocupam postos elevados. Obras não são feitas; o transporte continua péssimo; canalizações são abandonadas e renasce a descrença geral.
O candidato que logrou despertar a esperança vê-se envolvido em emaranhado de problemas, como pedidos de emprego, "quebra-galhos" para os patrocinadores, pagamentos de contas vencidas, etc. Recrudescem problemas cujas soluções são postergadas.
O eleito cai do ideal no real. Vê a cobrança dos compromissos. Vê o povo pela janela. Os ideais esmaecem-se. Vê que não é fácil cumprir as promessas e a população, novamente, se desilude. A logomaquia dos comícios dá lugar à hemiplegia moral que toma conta das decisões governamentais. Restaria aguardar novas eleições, para a retomada do processo de esperança. Só que elas vêm, passam e as mudanças não ocorrem.
De novo o povo desilude-se. No entanto, é obrigado a votar e a escolher o menos ruim.
É fundamental que os formadores de opinião e os líderes comunitários efetuem análise dos candidatos, informando bem a população.
De tudo, resta recolher a bandeira do ideal, enrolá-la. Quem sabe lutar para que ela não fique guardada por muito tempo. Quem sabe não mais desfraldá-la. Quem sabe deixá-la apenas num canto de coração. Quem sabe juntá-la a outras para, unidos, conseguirmos alguma coisa. Quem sabe permanecer apenas no ideal e deixar o real para os outros. Quem sabe...
Gazeta Mercantil/Caderno A - Pág. 7
Regis Fernandes de Oliveira - Advogado, professor titular de Direito Financeiro da Universidade de São Paulo e desembargador aposentado do TJ/SP. Foi presidente da FMB (Federação dos Magistrados Brasileiros, da AMB (Associação dos Magistrados Brasileiros) e da Apamagis (Associação Paulista dos Magistrados), deputado federal e vice-prefeito de São Paulo. É sócio titular do Escritório Regis de Oliveira, Corigliano e Benetti Advogados.
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