VIII ENAJE: "O desafio não é evitar os conflitos, mas transformá-los em aprendizado", disse a filósofa Helena Galvão

A professora destacou que o apego às certezas pode se tornar um dos maiores obstáculos ao crescimento pessoal e coletivo
Helena Galvão, professora e filósofa, tomou a palavra no VIII Encontro Nacional de Juízes Estaduais (VIII Enaje) com a serenidade de quem sabe que a reflexão é uma construção coletiva. Suas palavras não vieram como confronto, mas como convite: um chamado para olhar a vida e o trabalho com olhos renovados, atentos ao que move e ao que paralisa.
“Atrito é movimento”, disse Helena, começando com uma metáfora que ressoou pela sala. “Sem atrito, os sapatos não tocam o chão e não há deslocamento. Mas o atrito também pode ser luz, calor, vida.” Para Helena, o desafio não é evitar os conflitos, mas transformá-los em aprendizado.
Em sua fala, a professora convidou a audiência a rever conceitos cristalizados, lembrando que o apego às certezas pode ser um dos grandes obstáculos à evolução pessoal e coletiva. "É doloroso admitir, mas necessário: eu não sou dono de nenhuma verdade. Todas as minhas visões são provisórias e devem ser submetidas ao aperfeiçoamento. Assim, eu cresço, e os atritos se tornam produtivos."
Helena não trazia respostas prontas, mas abria caminhos para perguntas que, em sua simplicidade, revelavam profundidade. Qual é o nosso propósito? Como estamos lidando com as transformações que se apresentam diariamente?
Na plateia, composta por magistrados de todo o Brasil, sua fala encontrou ressonância especialmente ao abordar os ciclos da vida e da natureza. “A natureza tem seus invernos, momentos de recolhimento e cuidado, quando as sementes repousam. Mas também tem seus verões, quando tudo floresce e se expande. Somos assim também. Precisamos dos momentos de introspecção para refletir sobre quem somos e o que queremos levar ao mundo.”
Ao conectar propósito pessoal e impacto social, Helena destacou a importância de momentos de silêncio interior. "Reflita sobre suas crenças, sobre suas escolhas. Pergunte-se: por que acredito nisso? Ao questionar e reorganizar suas ideias, você constrói um mundo mais fiel a si mesmo e, por consequência, mais verdadeiro para os outros."
Helena também trouxe à tona questões práticas e urgentes, como a apreensão diante dos anúncios recentes de cortes de gastos públicos. “É um momento de incerteza que exige atenção. Por isso, reuniões como esta são essenciais. A troca entre os diferentes ramos do Judiciário – Trabalhista, Federal, Estadual – fortalece as identidades das carreiras e nos permite buscar soluções conjuntas.”
Dedicando um olhar especial aos magistrados aposentados, ela reforçou a necessidade de políticas que contemplem esse segmento. “Eles são pilares da história do Judiciário. Trabalhamos para garantir que suas conquistas sejam respeitadas e que a valorização seja mantida.”
Ao encerrar sua participação, Helena falou sobre o impacto que cada indivíduo pode gerar. “Não subestimemos o poder de uma pequena chama. Em tempos de polarização, sermos fiéis aos nossos valores é uma contribuição significativa para a sociedade. Quando crescemos interiormente, crescemos também por todos aqueles que se inspiram em nós.”
Helena Galvão deixou o palco com a leveza de quem não só provoca reflexão, mas também planta sementes. Sua mensagem ecoou no propósito maior do evento: repensar valores, construir significados e reforçar o compromisso da magistratura com a justiça e com a vida.




