Obra traz a marca do “absurdo” proposto pelo autor e foi analisada pelo escritor Miguel da Costa Pinto no último encontro literário

O Clube de Leitura da Associação dos Magistrados Brasileiros (AMB) debateu nesta quarta-feira (31) o romance “O Estrangeiro”, do escritor franco-argelino Albert Camus.

A obra foi analisada pelo escritor Manuel da Costa Pinto, um especialista na literatura do autor, que ficou conhecido pela sua “Filosofia do Absurdo”. Pela sua obra, Camus ganhou o Nobel de Literatura.

No romance “O Estrangeiro”, o protagonista Mersault, um francês morando na Argélia, atravessa uma vida banal e encarna contradições humanas que beiram a imoralidade.

O estranhamento do livro ocorre desde o começo, com as célebres frases: “Hoje, mamãe morreu. Ou talvez ontem, não sei”.

A gratuidade com que Meursault vive a sua existência ‒ que culmina com um encontro em que o protagonista assassina um homem com quatro tiros, sob a luz do sol do meio-dia, ‒ sela o destino do personagem.

“Mersault é um homem imerso na banalidade, um homem comum, um homem que é indiferente a tudo, mas, na hora que ele conta este clímax, tudo é narrado em ritmo de uma tragédia”, resume Manuel.

A partir da segunda parte do livro, em que ele é julgado e condenado por essa morte, Meursault vivencia o contraste dos acasos anteriores com a maneira como os fatos são descritos na voz do advogado, do juiz de instrução e do promotor.

Na análise de Miguel, os tribunais transformam a gratuidade dos fatos anteriores em um germe do crime pelo qual Meursault está sendo julgado.

“Ter assistido daquela maneira indiferente ao enterro da mãe, ter começado uma relação amorosa no dia seguinte, ter mantido uma relação de amizade com um homem de comportamento suspeito, são fatores suficientes para que esse assassinato ‒ que nós como leitores sentimos  que se deve a uma espécie de falha trágica ‒ seja inserido numa sequencialidade, numa concatenação lógica, que faz dele um assassinato concebido com intencionalidade, senão premeditação”, explica o escritor.

Ao final, Meursault tem uma revolta, e faz uma reflexão como essa gratuidade, vê uma tragédia na existência.

Miguel ressaltou que O Estrangeiro é um livro de interpretação “complicada”. Segundo ele, o protagonista pode ser visto como inocente do ponto de vista filosófico e metafísico, apesar de ser culpado juridicamente. Para o professor, Meursault não pode ser interpretado como um personagem do romance realista, mas sim como um herói mítico rebaixado.

A discussão foi acompanhada por Magistrados de todo o Brasil que participaram por videoconferência.

O Clube de Leitura da AMB reúne-se mensalmente para analisar obras marcantes da literatura mundial. No próximo encontro, dia 28/02, os Magistrados discutem Hamlet, de Shakespeare.

SERVIÇO

Clube de Leitura – Livro Hamlet
Quando: 28/02
Horário: 19 horas
Formato: on-line via plataforma Zoom
Inscrições[email protected]

Henrique Bolgue (Ascom/AMB)
Gostou? Então compartilhe!