Obra do escritor gaúcho de Moacyr Scliar se entrelaça com aspectos da vida real do autor, filho de imigrantes judeus

Nesta edição, o Clube de Leitura da AMB debateu o livro “O exército de um homem só”, de Moacyr Scliar, publicado em 1973. A narrativa acompanha a vida de Mayer Guinzburg, imigrante judeu que chega ao Brasil e, em seus delírios, sonha em fundar uma nova Birobidjan — uma referência à colônia judaica na Rússia. O livro reflete os altos e baixos da vida de Mayer, suas lutas ideológicas e pessoais, e sua busca incansável por um ideal socialista.

“O exército de um homem só” foi o terceiro livro de Scliar e se passa no bairro de Bom Fim, onde morava a maioria dos judeus de Porto Alegre (RS). Assim como o protagonista, Scliar também era descendente de judeus que migraram para a capital gaúcha.

A reunião contou com a análise de Cíntia Moscovich, escritora, jornalista e mestre em Teoria Literária. O encontro foi mediado pela Juíza Lívia Simone Freitas (TJ-AP).

Na conversa com os Magistrados, a professora Cíntia Moscovich apresentou as intersecções entre a vida e a obra de Scliar, segundo ela, aspectos que se comunicam de uma forma muito graciosa. Moradora de Porto Alegre (RS), Moscovich era vizinha do autor e se tornou uma profunda conhecedora da obra e vida de Scliar, que nasceu em 1937 e morreu em 2011. “Era um homem brilhante, muito produtivo, produzia textos de uma forma assombrosa”. Em sua carreira, o gaúcho escreveu mais de 70 obras.

A história de “O exército de um homem só” é contada em terceira pessoa e se desenrola ao longo de várias décadas, com capítulos que alternam entre diferentes anos. “Tradicionalmente, Scliar não gosta de lidar com a narrativa tradicional, ele adora picotar a narrativa e jogar com esses tempos”, explica a professora.

Os Magistrados que acompanharam a discussão ressaltaram a inspiração “quixotesca” da narrativa. A professora considerou que os aspectos fantásticos da escrita eram maneiras pelas quais escritores driblavam a censura da ditadura militar da época — pano de fundo para toda a obra de Scliar. Os delírios do protagonista também aludem a Don Quixote. “É um personagem que se desenha de uma riqueza ímpar, ele começa delirante, só que a história se sucede e ele se desvincula da realidade”. Moscovich lembra que Scliar era médico e estudava a mente humana, tendo inclusive dedicado um livro à melancolia: “Saturno nos Trópicos”.

O Clube de Leitura da AMB reúne-se mensalmente para discutir livros que marcaram a literatura mundial. A próxima obra discutida será “Maldito seja Dostoiévski”, do afegão Atik Rahimi.

Henrique Bolgue (Ascom/AMB) 

Gostou? Então compartilhe!