Para o coordenador da programação científica do XIX Congresso, Leonardo Wandelli, é também papel do Judiciário discutir as questões que preocupam a sociedade em todas as esferas: política, econômica e social. Por isso, convidou um time de painelistas de alto nível que vão nortear as discussões do evento, com base na pesquisa da cientista política Maria Tereza Sadek. Para ele, as decisões dos magistrados afetam diretamente os “rumos da sociedade e direcionam o cotidiano das pessoas. Essas decisões, que tomamos freqüentemente, também são influenciadas pelo que pensamos sobre aspectos que não são jurídicos. Supor que uma decisão terá uma determinada conseqüência econômico-social ou administrativa ou contribuirá em melhorar um determinado aspecto da comunidade certamente pesa nesses casos, ainda que nem sempre nos demos conta disso”, conclui.

AMB - Como foi o processo para elaborar uma programação científica tão diversificada como a do XIX Congresso Brasileiro de Magistrados? O senhor partiu de algum ponto específico?
Leonardo Wandelli
- A idéia inicial era de que o XIX Congresso se dedicasse à análise da pesquisa de opinião da magistratura, que será divulgada na abertura do evento, sobre seis temas relevantes para o Judiciário. O material coletado é riquíssimo para a reflexão sobre os posicionamentos dos juízes em temas delicados, nos quais muitas vezes se parte de uma pré-compreensão que não é discutida criticamente. Por isso, foi preciso ampliar o debate e permitir um maior aprofundamento não apenas dos aspectos abordados na pesquisa, mas de várias questões de interesse para o desenvolvimento do país em seus diversos aspectos. A idéia é abrir o horizonte de discussão para perguntas que ali não foram feitas.

AMB - Foi quando surgiu a idéia de convidar grandes personalidades para o debate?
Leonardo Wandelli -
Sim, buscamos grandes nomes para que pudessem contribuir efetivamente para a magistratura e a sociedade, num momento em que todos os olhos se voltam para o Judiciário e a população pede soluções para problemas que vão da pobreza e desigualdade - passando pelo aprimoramento das instituições e da própria Justiça - até interesses dos grandes investidores. Além disso, um Congresso da AMB deve contemplar os diversos segmentos da magistratura. Assim, os oito painéis e as três conferências que compõem a programação científica foram pensados para que se obtenha uma grande e plural radiografia das questões mais importantes que dizem respeito ao Judiciário, como parte da sociedade brasileira e cuja unidade se expressa no tema do evento, Desenvolvimento: uma questão de Justiça.
 
AMB - Há muitos acadêmicos na programação científica. Não há riscos de o evento ganhar um tom excessivamente acadêmico?
Leonardo Wandelli -
Não creio. Na verdade, a escolha dos conferencistas pretendeu justamente possibilitar um mix de nomes, não só com  diferentes pontos de vista, mas  representantivos de distintas área do saber e de setores da sociedade. A formação do time de painelistas reflete a grande qualificação dos convidados que, em muitos casos,   são especialistas e professores destacados de vários países, com uma rica e diversificada experiência. Mas também há parlamentares, magistrados, advogados, diplomata, economistas, ministro de Estado... E encerraremos com a prazerosa aula-espetáculo do grande escritor Ariano Suassuna.
 
AMB - Os temas a serem discutidos no âmbito do XIX Congresso têm relação, não apenas com a magistratura, mas mobilizam toda a sociedade. De que maneira as discussões ou o resultado delas podem interferir no cotidiano do cidadão brasileiro?
Leonardo Wandelli -
Quando os juízes decidem sobre o fornecimento gratuito de um medicamento, sobre a validade de um acordo coletivo de trabalho, quando aplicam uma pena com maior ou menor severidade ou limitam a atividade econômica em defesa do meio ambiente, por exemplo, estão participando da condução dos rumos da sociedade e afetando diretamente o cotidiano das pessoas. Essas decisões, que tomamos freqüentemente, também são influenciadas pelo que pensamos sobre aspectos que não são jurídicos. Supor que uma decisão terá uma determinada conseqüência econômico-social ou administrativa ou contribuirá em melhorar um determinado aspecto da comunidade certamente pesa nesses casos, ainda que nem sempre nos demos conta disso. Portanto, é preciso refletir de forma clara, aberta e crítica sobre a compreensão da realidade que trazemos conosco e que é tão relevante para a aplicação do direito, quanto os textos das leis. A própria formação dos magistrados, que será tema de um painel específico, se mostra algo essencial para os cidadãos. Isso já mostra como esses debates são importantes para a vida nacional.
 
AMB - O que o senhor espera do XIX Congresso?
Leonardo Wandelli -
Espero que todo o empenho da organização possa alcançar seu objetivo, de realizar um grande Congresso de Magistrados. Que seja lúcido e útil para o aprimoramento da Justiça; intenso, acolhedor e estimulante para todos os congressistas.

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