Obra retrata transformações ocorridas em Portugal depois da revolução que derrubou regime salazarista

O romance “Madrugada Suja”, do escritor e jornalista português Miguel Sousa Tavares, foi a obra discutida no Clube de Leitura da Associação dos Magistrados Brasileiros (AMB). Tavares é considerado um dos mais polêmicos e proeminentes intelectuais portugueses contemporâneos. Formado em Direito e Jornalismo, o autor começou a carreira na literatura com o livro “Equador”.

Escrito em 2013, o romance aborda as transformações em Portugal nos últimos 40 anos, em três histórias que se entrelaçam e vão de uma aldeia interiorana ao topo do poder da República. Além de um retrato sobre as mudanças desde a Revolução dos Cravos, a obra mostra como os acasos da vida levam as pessoas a situações-limite.

A especialista em literatura portuguesa Marlise Vaz Bridi foi convidada para comentar a obra. Segundo ela, o quarto romance de Tavares segue uma tendência da literatura produzida em Portugal de rever a história do regime ditatorial. Marlise apontou que o livro é de leitura fácil, agradável e apresenta a intensa transformação do país após a queda da ditadura, inclusive a corrupção que permeia a história política.

Apesar disso, a professora destacou que o livro tem falhas narrativas e estruturais que suscitam dilemas éticos, como o tratamento dado pelo autor a um abuso sexual — um dos conflitos centrais da narrativa. “Existe uma complexidade que precisa ser mostrada e ali ela não é mostrada. A questão é linear, sobretudo por causa da linguagem, que é homogênea entre os personagens”, afirmou.

Na discussão, os Magistrados concordaram com a crítica da especialista sobre a posição subalterna das mulheres no enredo e também apontaram dubiedades na ação de uma das personagens, a Juíza Maria Rodrigues. Os Magistrados também apontaram uma possível intenção do autor em retratar o desalento com a realidade portuguesa.

Ao final da apresentação, a professora Marlise Vaz Bridi ressaltou a importância da literatura como instrumento para rememorar a história. “A literatura é um documento informal de coisas que muitas vezes não existem no plano da formalidade. Ela nos traz um retrato, inclusive esse livro, de mentalidades, de valores", concluiu.

Na reunião, o Diretor Cultural da AMB, Kéops Pires, anunciou algumas das obras que serão analisadas nas próximas edições do Clube da Leitura: O Velho e o Mar, Ernest Hemingway; Dois irmãos, de Milton Hatoum; O Estrangeiro, de Albert Camus; Hamlet, de Shakespeare; Maldito seja Dostoiévski, de Atiq Rahimi e O coração é um caçador solitário, de Carson McCullers.

Henrique Bolgue (Ascom/AMB)

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