Visionária e distópica, obra de 2015 trata da ascensão do islamismo na França

O Clube de Leitura da AMB iniciou o ano com uma discussão sobre um dos autores mais polêmicos da literatura contemporânea: o francês Michel Houellebecq.

O livro escolhido foi “Submissão”, publicado em 2014, obra que marcou a carreira do autor por seu retrato provocador da sociedade francesa. O debate contou com a apresentação do professor Rafael Bassi, doutor em História e em Letras.

“Submissão” é um romance distópico que se passa na França de 2022, onde um partido islâmico moderado chega ao poder após derrotar a extrema direita. O protagonista, um professor universitário apático, assiste às transformações sociais e políticas do país, incluindo a islamização da Sorbonne e a adaptação da sociedade francesa ao novo governo.

O romancista é conhecido por seu estilo provocativo e suas críticas afiadas à sociedade moderna. Segundo o palestrante Rafael Bassi, três questões centrais permeiam sua obra. “A crise do Ocidente, mais especificamente da Europa, a questão do desejo sexual e o academicismo”, afirma. A crítica às universidades, por exemplo, é um dos aspectos centrais de “Submissão”.

Durante o debate, Bassi apresentou um vídeo de uma entrevista com Houellebecq em Porto Alegre, em que o autor argumenta que a filosofia francesa contemporânea é produzida mais por romancistas do que por filósofos e acadêmicos.

O lançamento de “Submissão” coincidiu com o atentado ao jornal “Charlie Hebdo”, o que aumentou ainda mais as polêmicas em torno do livro. “A obra traz uma dessas reflexões do Houellebecq sobre a ascensão da religião na vida política. Em muito, ele discute a ideia da França como um Estado laico, visto como um dos grandes tesouros nacionais”, destacou o palestrante.

No romance, as eventuais mudanças trazidas pela religião são bem assimiladas. O tema religioso não é novo na produção do autor; em Plataforma, por exemplo, já havia fortes críticas ao islamismo.

Ao longo da discussão, os participantes compartilharam suas impressões sobre a leitura. O mediador do encontro, Desembargador Franco Cocuzza (TJSP), já leu vários livros do autor e brincou ao dizer que considera Houellebecq “um francês ao extremo”. Ele também elogiou a dinâmica da narrativa. “É um livro muito dinâmico, reli agora. A impressão que tenho é que o Houellebecq está sempre no limite”, disse

O palestrante Rafael Bassi reforçou essa visão ao destacar o talento literário do escritor: “Por mais que ele tenha muitas opiniões reacionárias, é impressionante como o texto dele, para o bem ou para o mal, nos prende até o fim. Ele produz uma qualidade literária que é raríssima”.

O Desembargador Jorge Frias (TJMS) ressaltou a fina descrição dos locais em que o livro se passa. “Gostei muito das descrições dele pelas ruas de Paris. Achei interessante a mistura de personagens fictícios e reais no livro”.

Já a juíza Renata Manzini (TJSP) destacou a capacidade de Houellebecq de antecipar tendências e transformações sociais. “Acho que ele tem uma antena para o seu próprio tempo, antecipando novos acontecimentos. Ele constrói a trama de forma muito bem estruturada”, disse. Apesar das polêmicas, ela ressaltou que o livro a instigou a pensar essas transformações: “Essa misoginia dele às vezes incomoda, mas a gente precisa ser incomodado, também para enxergar as contradições que ele aponta”.

Assista ao encontro de Janeiro:

Próximo encontro

O Clube de Leitura da AMB segue promovendo encontros mensais para a discussão de grandes obras literárias, proporcionando debates enriquecedores sobre diferentes perspectivas da literatura e da sociedade.

O próximo encontro discutirá o livro “A Hora dos Ruminantes”, de José J. Veiga.

Uma narrativa fantástica e inquietante sobre a chegada de estranhos visitantes a uma pequena cidade, provocando mudanças misteriosas e desafiando a rotina de seus habitantes. Considerado um clássico da literatura brasileira, o livro explora o absurdo e a opressão.

SERVIÇO

Clube de Leitura - A Hora dos Ruminantes, de José J. Veiga.
Quando: 26/02
Horário: 19 horas
Inscrições: [email protected]
Formato: on-line via plataforma Zoom

Henrique Bolgue (Ascom/AMB)

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