Sob as lentes do povo negro, a memória afro-brasileira é resgatada na 2º edição do evento contra o racismo estrutural

 

“Na encruzilhada entre a submissão e a resistência, que histórias seus olhos conseguem ler?” A reflexão é lançada pela exposição "Reintegração de Posse”, a qual foi idealizada e coordenada pela pesquisadora da Universidade de Brasília (UnB), Ana Flávia Magalhães. A pergunta provocativa nos conecta com os nossos pré-conceitos e preconceitos sobre a trajetória do povo negro no Brasil. A exibição de fotos dos(as) pioneiros(as) na construção da capital federal - operários(as), médicos(as), enfermeiros(as), artistas e outros(as) tantos(as) que não foram identificados(as) pelo Arquivo Público da época - está localizada na Galeria dos Estados, região central. Quem são esses(as) que ergueram Brasília-DF? O retrato do apagamento da memória afro-brasileira é um recorte da triste realidade de várias cidades. Com a proposta de contar a história do país sob a ótica da pessoa negra, a Diretoria de Promoção da Igualdade Racial da Associação dos Magistrados Brasileiros(AMB) realizou a 2ª edição da Caminhada Negra em oito capitais.

Além de Brasília-DF, Aracaju- SE, Curitiba-PR, Rio de Janeiro-RJ, Salvador-BA, São Luís -MA, São Paulo-SP, Porto Alegre-RS  fizeram parte do roteiro turístico deste evento. Para quem conhece pouco sobre o outro lado da história do país, se surpreende com os/as grandes heróis/heroínas, os/as quais são negros(as), que bravamente contribuíram para a cultura brasileira.

“Nós não conhecemos a história do nosso país pela perspectiva das contribuições que as pessoas negras trouxeram para o Brasil. É importante que a Magistratura tenha contato com essa realidade para que possamos compreender que o espaço das pessoas negras não pode ser só um lugar de subalternidade, mas um espaço de reconhecimento”, disse a diretora de Promoção e Igualdade Racial da AMB, Flávia Martins de Carvalho.

Em Brasília-DF, os participantes começaram a caminhada na Praça Zumbi dos Palmares, em seguida passaram pelo baobá plantado na época da construção da cidade, e depois foram à Galeria dos Estados, logo após o grupo foi ao Museu Vivo da Memória Candanga e finalizou o percurso na Praça dos Orixás.

“Muito obrigado à AMB pelo convite para acompanhar essa caminhada. Reconhecemos que esta é uma grande oportunidade para conhecermos as contribuições do povo negro à cultura brasileira”, afirmou o embaixador de Trindade e Tobago, Gerard P. W. Greene.

 

 

A iniciativa tem ajudado a espraiar a consciência negra para diversas pessoas e gerações. A juíza Helena Refosco (TJ-SP) trouxe a filha de três anos para participar do evento.

“Eu considero que seja crucial, para evoluirmos de patamar civilizatório, que nós nos conscientizemos das desigualdades enormes que existem na nossa sociedade. Espero que as novas gerações vejam isso com muita clareza. Eu quero transmitir tudo o que estou aprendendo hoje para a minha filha. Considero muito importante essa conscientização para todas as finalidades - fortalecimento da democracia; redução da pobreza; felicidade geral; riqueza geral e o progresso de nossa sociedade”, avaliou.

Entender a história da capital federal sob a ótica da pessoa negra tem sido a busca de alguns magistrados(as) que desejam compreender a herança racial da pessoa negra no Brasil.

“Eu como magistrada do TJDFT, com jurisdição no Distrito Federal, tenho a oportunidade de olhar Brasília por estas lentes negras que trazem um significado diferenciado que vão me ajudar na vida diária, na Judicatura e análise dos processos. Precisamos olhar para a cidade com essa ótica antirracista”, disse a juíza Caroline Santos Lima (TJDFT).

A maioria dos componentes do grupo teve o primeiro contato com o afroturismo neste evento.

“Hoje conhecemos a história que não é colocada nos livros. Não é registrada. Nós visitamos lugares que têm a história de pessoas importantes para todos nós cidadãos que precisamos tanto dessa vivência”, afirmou a magistrada Maria Rosinete dos Reis Silva (TJ-AC).

Em Salvador-BA, os/as participantes conheceram a herança racial deixada na primeira capital do Brasil. A narrativa começa pelo período da escravização e passa pelas dimensões da capoeira, religiões de matriz africana, irmandade de homens pretos, carnaval, blocos afros e afroempreendedorismo, entre outros.

Em São Paulo-SP, a experiência turística começa na Praça da Liberdade 238 – Metrô Liberdade e termina cerca de três horas depois no Largo Paissandu.
No percurso de 3,5 quilômetros, os/as participantes conheceram a Igreja Nossa Senhora Rosário dos Pretos, a estátua da mãe preta, a Igreja Nossa Senhora dos Enforcados, o antigo Pelourinho e do antigo Morro da Forca, no bairro da Liberdade, entre outros.

ENM na live consciência

A Escola Nacional da Magistratura (ENM) promoverá um encontro virtual sobre o Dia da Consciência Negra: uma reflexão sobre a condição das pessoas negras na construção da história do Brasil. O evento será realizado no dia 23 de novembro, às 17h, com transmissão ao vivo pelo canal da ENM no YouTube.

A live terá como palestrantes o professor, historiador e pesquisador da historiografia africana, Natanael dos Santos; a juíza do trabalho aposentada Mylene Ramos, que em sua atuação se destacou em casos envolvendo minorias, discriminação e trabalho escravo, e a professora de filosofia, Katiúscia Ribeiro. Participarão como debatedores Marcela do Amaral e ngela Domingos.

 

Jonathas Nacaratte (ASCOM)

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