Olhar irônico de Machado de Assis sobre a sociedade brasileira marca a discussão do Clube de Leitura

Encontro contou com palestra da professora Flávia Amparo, uma das maiores especialistas na obra do autor
A última reunião do Clube de Leitura da Associação dos Magistrados Brasileiros (AMB) focou três contos de Machado de Assis, considerado um dos maiores escritores da literatura brasileira. Foi a primeira vez que o gênero fez parte da discussão entre os magistrados, marcando uma estreia em grande estilo. As obras discutidas foram “A Igreja do Diabo”, “A Cartomante” e “Pai Contra Mãe”, que abrem as coletâneas de contos do autor.
O encontro contou com a participação da professora Flávia Amparo, uma das maiores especialistas na obra de Machado. Em sua palestra, ela destacou a profundidade com que o escritor retratou o Brasil da sua época. “Ele toca em temas que são fundamentais para a sociedade: questões religiosas, sociais e econômicas”, comentou Flávia.
No conto “A Igreja do Diabo”, Machado explora a questão religiosa e a alma humana. Narrando a fundação de uma igreja pelo Diabo, que abole os pecados e crimes de seus seguidores, o autor se inspira em Santo Agostinho e faz referências ao livro de Jó, da Bíblia, e a Fausto, do alemão Goethe. Como em outras obras, Machado retrata a vida humana como um joguete entre o bem e o mal. “Na obra, ele critica o moralismo e ironiza a crença religiosa. Nesse embate com Deus, o Diabo percebe que os homens praticam virtudes às escondidas. É a eterna contradição humana”, explica a professora.
O segundo conto discutido foi “A Cartomante”, que critica a hipocrisia da sociedade e ironiza a forma como certas práticas e religiões eram criminalizadas na época. “Sabendo que o povo era extremamente crédulo, Machado trabalha com a própria crendice do leitor”, disse a palestrante.
“Pai Contra Mãe” é o texto que abre o último livro de contos publicado por Machado em 1906, num período pós-abolição da escravatura, cujas marcas ainda persistiam. “Ele usa o discurso irônico para expor a crueldade da escravidão. Toda a sociedade tinha um reflexo desse período, inclusive as pessoas mais pobres, que consideravam o trabalho braçal indigno”, ressaltou a professora.
Durante a reunião, os magistrados destacaram a atualidade da literatura de Machado de Assis, um autor que recentemente ganhou nova vida nas redes sociais e que mantém sua relevância.
“Toda a ficção de Machado é uma grande reflexão sobre a sociedade brasileira”, resumiu a professora Flávia Amparo.
Assista ao vídeo da discussão do Clube de Leitura:
No próximo mês, o Clube de Leitura volta ao romance, discutindo “As Avós”, de Doris Lessing, escritora britânica que recebeu o Nobel de Literatura em 2007.
Henrique Bolgue (Ascom/AMB)




