Diretora da AMB destaca a promoção da igualdade racial em evento para jornalistas do Judiciário

No Conbrascom, Flávia Martins de Carvalho (TJ-SP) aborda o papel das assessorias de comunicação no enfrentamento ao racismo
Ao contar essa história de trás para frente, a cena que se destaca é da plateia de jornalistas emocionada – aplaude de pé a diretora de Promoção da Igualdade Racial da AMB, Flávia Martins de Carvalho. O som das palmas toma conta do auditório da Defensoria Pública do Rio de Janeiro, órgão responsável pela realização do XVI Congresso Brasileiro dos Assessores de Comunicação do Sistema de Justiça (Conbrascom). O registro desses aplausos se dá pela conexão dos participantes com o relato de vida da magistrada, a qual aborda o papel das assessorias nas estratégias de divulgação antirracista. A palestra é um convite ao enfrentamento a este tipo de crime, ministrada a partir do desabafo de quem já foi vítima.
Estar no palco era algo improvável para Flávia Martins, que venceu pessoas que a disseram que pobre não tinha que estudar. O maior desafio superado foi o de não acreditar ou não se deixar derrotar por todas as vezes que alguém a disse qual era o seu lugar, e queria encaixá-la naquele espaço de subalternidade relegado às mulheres pretas e pobres na base da pirâmide social.
Palestrar para jornalistas sobre comunicação pública e racismo na capital carioca é algo bem significativo para a juíza, que também é formada na área, nascida e criada no RJ. “Tem alguém aqui da turma de 1994 da UERJ?” pergunta Flávia que trabalhou por muitos anos numa ASCOM de uma instituição financeira.
A juíza destaca elementos importantes para uma comunicação assertiva – a aplicação do Estatuto da Igualdade Racial na estratégia de trabalho das assessorias. A lei nº 12.288 de 2010 também prevê a produção veiculada pelos de órgãos a valorização a herança cultural e a participação da população negra na história do País.
“Eu posso fazer uma boa comunicação sobre algo que eu não conheço?”, questiona a juíza, que apresenta uma série de erros cometidos em campanhas institucionais do setor público e privado do Brasil. É o racismo evidenciado nas telas das plataformas midiáticas. Imagine, uma propaganda de sabonete prometendo transformar a pele negra em branca; uma outra de financiamento estudantil com a foto de um negro com as mãos brancas segurando o canudo de formatura universitária. “Isso te choca? Se não, temos muito que conversar”, provoca Flávia Martins.
A diretora da AMB também aborda o percurso histórico do povo negro com recorte de 1444 a 1888, ano da abolição da escravidão. Para falar sobre este período, ela lê a letra da música “100 anos de Liberdade – Realidade ou Ilusão?” Clique aqui e ouça a composição de Hélio Turco e Jurandir e Alvinho, que questiona a tal liberdade contada pelos livros de história do Brasil.
Sobre a representatividade de negros nos espaços de Poder, a juíza expõe capas de revistas de grande notoriedade – com mulheres brancas, magras, olhos azuis e principalmente loiras. Nos filmes, os protagonistas seguem o mesmo estereótipo. Onde estão os negros? A reposta todos já sabem.
Se fossemos tirar uma foto da Magistratura brasileira, teríamos um quadro sobretudo branco. Uma ínfima parte negra, e a outra com alguns pontinhos isolados de indígenas. Para se ter uma ideia, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) tem uma pesquisa – divulgada em 2018 – que revela que apenas 18.1% dos magistrados são negros. Dentre eles, 1.6% é de pretos e 16,5% são pardos do total de entrevistados, 80,3% são brancos e somente 11 se declaram indígenas.
A pesquisa foi realizada com 11.348 magistrados ativos, cerca de 62% do total de juízes, desembargadores e ministros dos tribunais superiores do país. Os números nos convidam a questionar o racismo sutil enraizado em nossa sociedade
Esse estudo foi divulgado à época em que a Flávia Martins ingressou na Magistratura. Ao empossar no Tribunal de Justiça de São Paulo, a maior Corte do mundo, a juíza preta, de origem pobre realça os 55% de pretos e pardos (IBGE) da sociedade brasileira – “cadê o juiz(a) negro(a)? Representatividade importa”, defendeu a diretora da AMB.
"Eu nadei contra a correnteza do preconceito, do racismo e da pobreza para estar aqui”, alude Flávia que cita o trecho do livro “Longa caminhada até a liberdade” do presidente da África do Sul, Nelson Mandela (1994-1999).
“Ninguém nasce odiando outra pessoa por causa da cor da sua pele, ou de sua origem, ou de sua religião. As pessoas têm que aprender a odiar, e se elas podem aprender a odiar, elas podem ser ensinadas a amar, pois o amor ocorre com mais naturalidade no coração humano do que o seu oposto”, cita.
“Meninas sonhadoras, Mulheres cientistas”
A juíza auxiliar do Supremo Tribunal Federal (STF) Flávia Martins de Carvalho, oriunda do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP), lança no próximo dia 30 o box "Meninas sonhadoras, mulheres cientistas" – que conta as histórias de vinte mulheres que romperam as barreiras do preconceito para alcançar posições antes restritas à presença masculina. O evento será na Biblioteca Ministro Victor Nunes Leal – 1º andar do anexo II – A no STF das 18h às 21h.
Composta por dois livros, a obra – que aborda a vida e a carreira de mulheres cientistas das mais diversas áreas.
"Nós queremos contribuir para o empoderamento feminino, a educação antirracista e a formação inclusiva, apresentando mulheres bastante diversificadas, que, através de seus saberes, trouxeram grandes contribuições para o Brasil e o mundo" afirmou a escritora.
Flávia Martins de Carvalho também é mestra em Direito pela UFRJ, doutoranda em Filosofia e Teoria Geral do Direito pela USP, e professora e pesquisadora nas áreas de Filosofia e Teoria do Direito, Direito e Literatura, Gênero e Questões Raciais.
Jonathas Nacaratte (Ascom)




