Ensaio aborda uma história familiar marcada por ciúmes e assassinatos

No segundo debate do ano promovido pelo Clube de Leitura da Associação dos Magistrados Brasileiros (AMB) nesta quarta-feira (23), “Lady Macbeth do distrito de Mtzensk”, de Nikolai Leskov, foi a obra analisada pelos participantes, sob tutoria da professora Elena Vássina, nascida na Rússia e especialista na literatura de sua terra natal.

Antes de fazer uma leitura da obra, a professora levou ao conhecimento do grupo um pouco da história do autor e da situação no país à época em que o texto foi escrito e publicado, em 1965.

Nikolai Leskov nasceu em 1831, em Oriol, cidade interiorana e localizada na área central da Rússia, em uma família humilde. Por ter abandonado cedo a escola e concluído os estudos em casa, foi considerado um autodidata. O ingresso na literatura ocorreu em 1860, década de grandes reformas no país, a exemplo da abolição da servidão (1861), e de mudanças na Educação e no Judiciário realizadas pelo então imperador Alexandre II. Leskov foi contemporâneo de Dostoiévski e Tolstói.

De acordo com a professora, Leskov preferiu adotar a posição de escritor independente, decisão que não foi entendida nem perdoada por colegas de ofício. Com isso, virou alvo de críticas e de censuras. Ele se tornou importante, porém só recebeu o reconhecimento em 1920. A forma de exaltar peculiaridades da Rússia foi um dos diferenciais do escritor.

“Nikolai Leskov é capaz de tratar a Rússia inteira e autêntica e focar em detalhes pitorescos. Deve ser por isso que os russos o consideram o mais russo de todos os escritores russos. Quando você lê as obras de Leskov, você vê mais claramente o complicado homem russo que, ao mesmo tempo que acredita na beleza e liberdade, consegue se tornar escravo de sua fé e opressor de si mesmo”, analisou.

A respeito de “Lady Macbeth do distrito de Mtzensk”, a professora ressaltou que é considerada uma obra-prima do autor. Ela explicou também que, ao contrário do que dizem, não é uma novela e sim um ensaio. A obra de 80 páginas traz uma história familiar e tem como personagem principal Catierina Lvovna, uma mulher ambiciosa, ciumenta, tomada por uma paixão desenfreada, casada com um comerciante idoso e envolvida numa série de assassinatos. Uma das vítimas é o próprio sogro.

“Para Leskov é importante ilustrar como o primeiro assassinato, inevitavelmente, envolve os outros. Ele tirou de Shakespeare [William Shakespeare] não só o nome de sua personagem, mas também essa ideia de inevitabilidade. Outro detalhe importante é que essa é uma época de discussão do ‘novo homem’. Leskov mostra essa força cega da sexualidade, de paixão, de atração sexual que torna personagens mais animais do que os próprios animais”, destacou a professora.

A personagem, ao longo da obra, vai se modificando. Inicialmente ela não é uma pessoa nem boa nem ruim. No entanto, acaba se transformando numa das piores pessoas. “No meu modo de interpretar, tudo fica muito aberto. Parece-me que ela não se arrepende do que fez. Ela se suicida, mas não busca a graça, a redenção, um perdão. Ela não busca esse perdão em nenhum momento”, opinou o mediador do debate, desembargador Carlos Gustavo Vianna Direito, que lançou a questão à palestrante e aos demais participantes.

“Isso é muito importante no contexto da época e da literatura. Leskov cria esse personagem, a meu ver, até mais assustadora do que a Lady Macbeth de Shakespeare, que se suicida de remorso. Na minha leitura, Leskov mostra esta força da sexualidade como uma força sombria que fica mais forte do que qualquer faísca divina”, respondeu a professora Elena Vássina

Para o vice-presidente Cultural e de Tecnologia da Associação dos Magistrados Brasileiros (AMB), Thiago Brandão, esse foi mais um encontro enriquecedor pela qualidade da obra, da palestrante e dos questionamentos feitos pelos participantes. Após agradecer a todos por mais um momento de conhecimento, ele fez um convite para o próximo encontro.

“O trimestre russo foi muito enriquecedor e o nosso próximo trimestre será voltado à literatura brasileira. Já passeamos pela América latina, pela Europa, agora vamos voltar ao Brasil. No nosso próximo encontro, em março, faremos a merecida homenagem que deveríamos fazer todos os meses às nossas mulheres. Vamos debater “Ponciá Vicêncio”, de Conceição Evaristo. Não percam”, convidou o magistrado.

 

Serviço: Clube de Leitura - "Ponciá Vicêncio" (próximo encontro)
Data: 30/03
Hora: às 18h30.
Palestrante: professora Ludmilla Lis.
Mediadora: juíza Dayane Rodrigues Mendes

 


Daiane Garcez (Ascom)

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