Clube de Leitura percorre o labirinto burocrático do livro O Processo

Clássico do tcheco Franz Kafka foi discutido pelos magistrados no encontro de novembro
“Diante da lei está um porteiro.” Assim começa a parábola contada ao protagonista de O Processo, Josef K., pelo capelão do presídio, pouco antes de sua sentença final — um desfecho que nem ele, nem os leitores conseguem saber se é justo.
No livro, as portas estão sempre fechadas para Josef K., um bancário preso na manhã de seu aniversário por dois agentes não identificados. Em sua busca interminável por respostas, ele se depara com o poder invisível do Estado e com suas próprias dúvidas.
“Durante a leitura, nos vemos como o personagem, parados diante de uma porta que não nos deixam atravessar”, afirmou o Desembargador Fernando Armando Ribeiro (TJMMG), palestrante do último encontro do Clube de Leitura da AMB.
Para o magistrado, a obra reflete um estado opressor e levanta dúvidas não apenas sobre a culpa do protagonista, mas também sobre os objetivos do Tribunal.
“Logo de início, o livro levanta uma pergunta: o personagem foi denunciado injustamente? Essa é uma marca de todos os regimes de exceção, que utilizam o Estado para atingir, de forma absolutamente vil, seus fins particulares mais ocultos. Há uma onipresença do Estado na narrativa”, destacou.
Devido a esse retrato preciso do absurdo da burocracia, surgiu o adjetivo "kafkiano", usado para descrever muitos momentos da vida moderna.
O palestrante enfatizou que as ambiguidades e os paradoxos que permeiam o livro refletem o assombro diante do Estado, traduzidos em uma narrativa labiríntica.
“Esse lado paradoxal e incomunicável que o Direito guarda pode não ser resolvido, mas a literatura consegue tornar comunicável o incomunicável. Kafka apontou, com a singularidade que a literatura permite, fenômenos muito importantes e universais da burocracia”, afirmou o desembargador.
Escrita direta
O livro foi publicado em 1925, após o amigo de Kafka, Max Brod, editar os escritos inacabados do autor, falecido em 1924.
Influenciado pelo russo Dostoiévski, Kafka recompôs o realismo do século XIX com uma escrita seca, que deixa pouco espaço para o lirismo. Segundo o desembargador, alguns estudiosos apontam que, em O Processo e O Castelo, o escritor tcheco teria usado propositalmente traços da linguagem jurídica.“Alguns sugerem que ele utilizou essa linguagem protocolar como um estratagema para intensificar o retrato da burocracia”, afirmou o des. Fernando Ribeiro.
Apesar da escrita direta e sem floreios, Kafka traduziu a humanidade como poucos, avaliou o palestrante. “Adorno dizia que ler Kafka é como um déjà vu permanente. Ele é um mestre em interpretar e simbolizar a vida real em suas obras.”
Durante o encontro, o palestrante apresentou interpretações de O Processo feitas por Milan Kundera e Jacques Derrida, além de destacar o entrelaçamento entre religião e Direito na obra. “De fato, é um livro infinito”, resumiu.
Diante de uma obra amplamente conhecida entre os magistrados, o debate no Clube de Leitura foi além do óbvio. Para o Juiz Alexandre Roque, mediador da discussão, o livro desperta inúmeras interpretações. “É a segunda vez que leio e sinto a necessidade de reler. Parece que, a cada leitura, descobrimos coisas que não percebíamos anteriormente.”
O magistrado Franco Cocuzza, que leu a obra pela terceira vez, fez um paralelo com sua atuação jurídica. “Estamos inclinados a pensar do ponto de vista do jurista, mas imagino o impacto para um leigo. A história mostra que a pena é o próprio processo; a execução não significa nada”, analisou.
Confira o debate sobre "O Processo":
Próximo encontro
O próximo livro analisado pelo Clube de Leitura da AMB será "O visconde partido ao meio", de Italo Calvino. A obra será comentada pela professora Maria Cecilia Casini.
Diferentemente dos últimos meses, o encontro acontecerá na penúltima quarta-feira do mês, dia 18 de dezembro.
Envie seu nome para [email protected] para participar!
Henrique Bolgue (Ascom/AMB)




