A presidente da AMB falou com o programa Cartão de Visita e também participou de uma live com a deputada Luísa Canziani

Apesar de a Justiça brasileira ser considerada a melhor do mundo - foram quase 35 milhões de sentenças só durante a pandemia -, ela é constantemente atacada por aqueles que buscam acabar com prerrogativas essenciais à independência dos Poderes e à garantia do correto andamento processual. A questão foi amplamente debatida e defendida pela presidente da Associação dos Magistrados Brasileiros, Renata Gil, em entrevista nesta quinta-feira (10) ao jornalista Zacarias Pagnanelli, do programa Cartão de Visita.

“Volta e meia tem projeto de lei que quer mexer nas prerrogativas da magistratura. Essas questões são, na verdade, proteções para a sociedade, pois elas garantem que a Justiça não sofra nenhum tipo de pressão e seja independente”, explicou Renata Gil. A presidente ponderou também que magistrados e membros do Ministério Público possuem especificidades em suas funções, por isso, não devem ter o mesmo formato de trabalho dos demais servidores públicos. “O juiz não bate ponto, não tem uma jornada fixa de trabalho. Corremos uma série de riscos, eu mesma já sofri um atentado e ameaças de morte”, revelou. “Se eu não tenho o mesmo regime de trabalho que um servidor tradicional, não é certo que eu esteja em uma reforma que coloque todos no mesmo molde”, disse a presidente da AMB ao citar a Reforma Administrativa.

Na entrevista, a magistrada falou ainda do trabalho incansável da AMB para defender a valorização da carreira da magistratura e pautas que tramitam no Congresso Nacional e afetam diretamente a vida dos brasileiros, como o texto substitutivo do Código de Processo Penal. “Tudo o que a gente faz é pela sociedade, temos enfoque na melhoria das condições de vida dos brasileiros. Contem com a AMB para o fortalecimento do Estado Democrático de Direito”, pontuou.

Outro assunto que ganhou grande destaque durante a participação de Renata Gil no programa foi o avanço da participação feminina em cargos de destaque e chefia. A magistrada é a primeira presidente mulher da AMB, que tem 70 anos de existência. Ela comemorou o fato de ter percebido o quanto sua vitória tem incentivado outras mulheres. “A sociedade buscou mulheres nesses cargos. Eu ouvia que as magistradas pediam por representatividade, havia um grito calado. Esse é muito um espelho do que as mulheres têm pretendido. Tenho me encantado com mulheres que são CEO, mulheres que estão ocupando postos que antes eram só dos homens”.

Mas, infelizmente, a posição das mulheres na sociedade atual não traz apenas dados positivos. A ascensão feminina é facilmente ofuscada pelos casos de feminicídio e agressão contra a mulher que são registrados diariamente no Brasil. Dados que foram agravados durante a pandemia. “As mulheres ficaram confinadas com seus agressores e não tinham como pedir ajuda”, disse Renata Gil ao contar como surgiu a ideia da Campanha Sinal Vermelho, que completou um ano nesta semana. A iniciativa foi um sucesso e logo ganhou o Brasil. Atualmente, é Lei em dez estados, além do Distrito Federal.

O assunto foi tema da live que a presidente da AMB realizou junto à deputada Luísa Canziani (PTB-PR), também na última quinta-feira. Luísa, inclusive, revelou ser apoiadora da Sinal Vermelho e lembrou da necessidade de levar a iniciativa para outros países. "Essa ideia surgiu neste momento de pandemia, mas vai ficar mesmo depois de tudo isso acabar. E não só no Brasil, mas também pelo mundo. Porque temos visto que está fazendo a diferença na vida das mulheres", comentou a deputada.

Na conversa, Renata Gil afirmou que é preciso "botar a mão na massa" e criar iniciativas que erradiquem os problemas. "Depois da campanha, a gente viu que outras formas de denúncia apareceram, como uma mulher que foi ao banco e pediu ajuda para outra mulher em um papelzinho. Ou como uma mulher que colocou o "X" na janela do carro e foi socorrida. Nossa missão maior é salvar vidas, mas também garantir às mulheres o direito de liberdade", finalizou.


Júlia Rodrigues (ASCOM)

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