"Criamos um mito, mas estamos mais dependentes do que nunca – de um Estado que invade até o que deveria ser sagrado, íntimo", disse

Era manhã, mas o ar parecia crepuscular. No VIII Encontro Nacional dos Juízes Estaduais (ENAJE), Luiz Felipe Pondé se levantava como quem carrega um peso antigo, o de decifrar o indizível. A sala estava cheia, mas a solidão das perguntas parecia pairar sobre cada rosto.

Ele começou devagar, quase como se hesitasse em ferir a delicadeza do silêncio. Citou Hegel: “A coruja da sabedoria levanta voo ao entardecer.” E ali, na penumbra do século XXI, Pondé parecia perguntar: estamos preparados para entender o que nos cerca, ou já é tarde demais?

A utopia liberal nos prometeu a liberdade, mas entregou uma prisão que não se vê, apenas se sente. Pondé falou disso com a clareza de quem descobre rachaduras em algo que sempre acreditou sólido. Um mundo onde pais precisam de autorização judicial para dar banho em seus próprios filhos, ou onde irmãos disputam heranças triviais como se fossem grandes reinos.

“A autonomia”, disse ele, “é uma ficção. Criamos um mito, mas estamos mais dependentes do que nunca – de um Estado que invade até o que deveria ser sagrado, íntimo.”

Quando Pondé falou de tecnologia, não houve fascínio. Houve inquietação. Ele descreveu um mundo que se curva diante da inteligência artificial, da medicina de precisão, das promessas de imortalidade. “Chamam isso de disrupção,” ele ironizou, “mas quem ela realmente beneficia? E quem ela destrói no caminho?”

A ciência, lembrou Pondé, é a nova religião. Desde Bacon, tratamos a natureza como algo a ser conquistado, não compreendido. “Esquecemos que somos natureza também”, ele disse, e a frase ressoou como uma verdade antiga, dessas que todos sabem, mas ninguém quer encarar.

E então veio o momento mais humano, mais íntimo. Pondé falou sobre o “cansaço de ser si mesmo” – essa exaustão que nos consome quando o mundo exige que sejamos tudo, o tempo todo. “A modernidade nos colocou em uma armadilha. Precisamos ser nossas melhores versões, sempre reinventados, sempre prontos. Isso é uma violência,” ele afirmou.

Pondé voltou-se, então, para os magistrados. “Vocês,” ele disse, “são os guardiões de uma sociedade que não sabe mais resolver seus próprios conflitos.” A litigiosidade, ele alertou, só vai crescer. Não porque nos tornamos mais livres, mas porque perdemos a capacidade de nos entender.

A sala mergulhou em um silêncio denso, como se cada palavra tivesse deixado marcas invisíveis.

Pondé não ofereceu respostas. Ele não prometeu saídas nem conforto. Apenas iluminou o negativo, como quem acende uma vela em um quarto escuro. O mundo, ele disse, está repleto de promessas quebradas: redes sociais que não nos conectam, avanços que não nos aliviam, liberdade que não nos liberta.

No final, foi Pondé quem agradeceu, mas a resposta veio em pé, com aplausos vigorosos. Ali, entre reflexões profundas, ficou evidente que a magistratura brasileira não apenas julga; ela acolhe as perguntas que desafiam e constroem os alicerces de uma sociedade mais justa.

O evento foi mediado pela vice-presidente de Valorização da Magistratura da AMB e presidente da ASMEGO, Patrícia Carrijo. Ela guiou as discussões, reafirmando o compromisso da magistratura com os desafios do presente.

Gostou? Então compartilhe!