Obra que traça paralelos com “Crime e Castigo” foi discutida pela professora e pesquisadora russa Elena Vássina

O caos e a banalidade da guerra formam o cenário do livro "Maldito seja Dostoiévski”, discutido pelo Clube de Leitura em junho. O quarto romance do afegão Atiq Rahimi publicado no Brasil estabelece paralelos com o clássico “Crime e Castigo”, do autor russo Fiódor Dostoiévski, e traz questionamentos sobre culpa, justiça e vingança.

A obra foi apresentada pela professora da USP Elena Vássina, que participou por videoconferência diretamente da capital da Rússia, Moscou. Ela contou sua experiência pessoal ao viver na Rússia durante os anos da guerra civil do Afeganistão, que começou em 1978 ‒ quando o país ainda fazia parte da União Soviética ‒ e até hoje perdura. “Quando li esse romance, revi a mesma coisa que faz parte dessa memória: a violência e a guerra que até hoje não terminou. O país continua a ser um dos mais pobres do mundo.”

O autor Atiq Rahimi, nascido em 1962, em Cabul, deixou o país rumo ao Paquistão em 1984 e obteve asilo político na França, onde se formou e vive até hoje.

Para a pesquisadora Elena Vássina, o romance escrito em 2011 demonstra toda a devastação causada pela violência do conflito no país natal do autor. “É impossível parar essa sede de sangue, a vingança sempre aumenta.” Simbolicamente, o cenário apresentado no livro é de um lugar empoeirado, sem sol. “A luz da razão está ofuscada”, comentou Vássina.

Os paralelismos com “Crime e Castigo”, de Dostoiévski, ocorrem desde o começo, com o assassinato cometido pelo protagonista Rassul. A palestrante destacou o fato de o personagem tentar confessar o crime e expiar a culpa, mas não conseguir. “Os assassinatos viram algo muito comum e cotidiano na guerra. A cidade está se afogando e a violência se tornou cotidiana, algo banal para o povo afegão.”

Ela considera que o autor Atiq Rahimi atualiza Dostoiévski ao fazer com que o seu protagonista perca a voz pelo trauma emocional e tenha sua consciência apresentada por meio de sonhos e devaneios. “Para mim, foi um grande achado do escritor, uma grande metáfora. A guerra é a falta de diálogo, falta de comunicação”, concluiu.

Durante o encontro, o mediador Desembargador Franco Cocuzza (TJ-SP) também destacou a falta de comunicação. “Ele não ter voz não mudou nada, naquele cenário não muda muito. Na guerra a vida perde todo o valor.”

Assista ao encontro:

"Maldito seja Dostoiévski” foi o último livro da primeira leva de obras discutidas pelo Clube de Leitura em 2024.

As próximas reuniões já têm datas e livros definidos.

Confira a lista de obras do segundo semestre NESTE LINK.

Henrique Bolgue (Ascom/AMB) 

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