Escritor Milton Hatoum participa do Clube de Leitura da AMB

Magistrados discutiram o livro “Dois irmãos”, sucesso do autor brasileiro
A última reunião do Clube de Leitura da Associação dos Magistrados Brasileiros (AMB) teve a participação especial de Milton Hatoum, autor do romance “Dois irmãos”. Foi a primeira vez que o escritor da obra discutida participou do encontro literário da AMB.
Nascido em Manaus, Hatoum é considerado um dos grandes escritores brasileiros vivos. Com 71 anos, ganhou diversos prêmios literários e teve livros traduzidos em mais de 15 países.
“Dois irmãos” é uma das suas obras mais conhecidas, tendo sido adaptada para o teatro, os quadrinhos e a TV. Lançado em 2000, o romance conta a história de uma relação conturbada entre dois irmãos de ascendência libanesa (assim como Hatoum) que vivem em Manaus. A narração é feita pelo filho da empregada doméstica da família, Nael.
A discussão do Clube de Leitura contou com Magistrados de todo o Brasil. O Diretor Cultural da AMB, Alexandre Roque Pinto, foi o mediador do debate.
Segundo Hatoum, “Dois irmãos" foi uma obra com a escrita mais pensada e apurada do que o seu livro de estreia, “Retrato de um certo Oriente”. O encontro foi marcado por uma profunda discussão sobre a literatura e o processo de escrita de Hatoum. “Quando eu penso no romance, eu penso também no fim e eu começo pelo fim. É um modo de me livrar dessa pergunta, de onde isso vai dar”, explicou o autor.
A literatura de Hatoum tem grande ligação com sua cidade natal. Segundo ele, uma das inspirações para suas obras foi sua volta, em 1984, para Manaus, de onde saiu muito cedo para estudar.
“Houve uma transformação muito bruta, brusca, da fisionomia urbana de Manaus. Isso sempre me impressionou, a questão das cidades. Talvez pela minha formação de arquiteto, talvez tenha influenciado o meu trabalho e a minha preocupação pelas cidades, principalmente pelas cidades amazônicas”, disse.
A Magistrada Daniela Ninno (TJ-SP) disse que ficou “encantada com a descrição de Manaus” feita por Hatoum e “comovida com a descrição da indígena tirada da sua comunidade de origem”.
“Trata-se de uma situação que afeta principalmente as mulheres. Essa situação de submissão, de escravidão, é uma situação que historicamente sempre afetou muito mais as mulheres. Essa questão está escondida, dentro do ambiente doméstico, que impede uma atuação até mesmo do estado”, ressaltou a Juíza.
O Desembargador Luiz Eduardo Günther (TRT-9 região), afirmou ser um grande admirador do escritor e o indagou sobre suas inspirações, lembrando de entrevistas em que Hatoum disse gostar de caminhar e observar pessoas.
Hatoum declarou que “adoraria ser Juiz e ouvir todas as histórias, a literatura também se alimenta das desgraças humanas. Eu saio para ver a cidade e para ouvir histórias. Quando escrevia crônicas, fazia muito isso: entrava em uma padaria, ficava à espreita, com as orelhas em pé, fazendo anotações. Ouvia histórias de amor, histórias escabrosas. Isso me alimentou muito, ainda me alimenta. Eu prefiro ouvir a falar”.
Sobre o livro, a Juíza Lívia Freitas (TJ-AP), também integrante da Diretoria Cultural da AMB, considerou que “a narrativa é magnética”. A Magistrada ressaltou a relação entre os dois irmãos do título e perguntou ao autor sobre o papel dos pais na desarmonia entre os filhos.
Para o autor, o retrato dessa família pode demonstrar a falta de diálogo entre pais e filhos, comum naquela época. “Há caminhos corretos, há caminhos errados, mas você costuma apontar os caminhos certos para os filhos. Saí de casa com 15 anos, e sinto às vezes que ficou algo incompleto na minha adolescência”, revelou Hatoum.
No final do encontro, o assessor cultural da AMB, Antonio Clementin, destacou o papel de um Gazal ‒ uma forma de poema árabe ‒ na relação amorosa entre um casal de personagens do livro. Segundo Hatoum, “gazal é uma forma de poemas amorosos, que fala também sobre o vinho, a tradição de embriagar-se de amor”.
O próximo livro discutido pelo Clube de Leitura (29/05) será "O exército de um homem só", de Moacyr Scliar.
Assista ao debate sobre Dois Irmãos:
Henrique Bolgue (Ascom/AMB)




