”Esse projeto nasceu de um sonho. Como juíza criminal, me vi na situação daquelas mulheres”

Há um ano pousava no aeroporto de Guarulhos (SP) um avião de origem internacional desconhecida, mas com um grupo de passageiros aguardado por diversas autoridades civis e militares. O grupo de 26 pessoas, entre eles sete juízas e seus familiares. Todos refugiados ameaçados de morte pelo grupo terrorista Talibã, o qual tomou o poder e o Governo no Afeganistão. A operação de resgate foi orquestrada e capitaneada pela presidente da Associação Magistrado Brasileiro, Renata Gil. O sucesso do resgate das juízas afegãs, que rendeu para a entidade prêmios nacionais e reconhecimento internacional, foi celebrado na última segunda-feira (7), durante um evento em Brasília.

“Esse projeto nasceu de um sonho. Como juíza criminal, me vi na situação daquelas mulheres, sendo ameaçada tendo que mudar toda a minha vida por causa de criminosos que eu condenei. Não podia ficar parada. Realizamos uma verdadeira política pública com essa operação, com contribuição coletiva, pois recebemos muita ajuda”, contou Renata Gil. No Brasil, as famílias refugiadas foram acolhidas, receberam casa, aulas de português, plano de saúde, vistos e emprego. “Ninguém fez tanto por mim e pela minha família quanto a AMB. Casa, comida, segurança. Não tenho palavras para agradecer”, disse uma das juízas resgatadas.

“Quando se une vontade em torno de uma boa causa, as dificuldades são vencidas. E foi isso que a entidade fez no caso das juízas afegãs. Essa ação humanitária trouxe um ganho extremamente positivo a imagem da magistratura perante a sociedade nacional e internacional”, ponderou o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Dias Toffoli.
O secretário de assuntos internacionais da AMB e vice-presidente da União Internacional de Magistrados (UIM), desembargador Walter Barone concordou com o ministro. “Essa ação colocou o Brasil à frente no cenário internacional. Virou modelo a ser seguido pelos demais países e trouxe um reconhecimento enorme para a magistratura brasileira”, disse.

O protagonismo brasileiro e sua posição como modelo de ajuda humanitária também foi citado pela diretora da AMB Mulheres e uma das idealizadoras do plano de ação, Domitila Mansur. “Esse resgate tornou o Brasil um exemplo no cenário internacional que espero que seja mantido”, afirmou a magistrada.

O Banco do Brasil, parceiro da AMB na operação, esteve presente na solenidade na figura da diretora jurídica Lucinéia Possar. “É uma honra estar ao lado da AMB e poder contribuir para essa causa. A entidade tem sempre um olhar para o futuro e para as práticas humanitárias”, agradeceu a diretora.

O presidente honorário da AMB, juiz de direito Jayme Martins de Oliveira Neto, reforçou para as magistradas afegãs que elas não deveriam se sentir “devedoras” pela ajuda recebida. “Nós é que agradecemos a oportunidade de resgatar a nós mesmos”, destacou.

Homenagens

Durante o evento, a AMB homenageou os parceiros que apoiaram o resgate e a instalação das magistradas afegãs no Brasil. Entre eles, o presidente do Banco do Brasil, Fausto Ribeiro, o conselheiro do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), Mario Goulart Maia; o embaixador Carlos Alberto Franco França, representado pelo Embaixador Paulino Franco de Carvalho Neto, secretário de Assuntos Multilaterais Políticos; coronel Aviador Mauro Monsanto; o diretor da Qualicorp, Pablo dos Santos Meneses; Instituto J&F, Adriano Cláudio Ribeiro; e o diretor do Colégio Marista, Luiz Gustavo Mendes.

Livro documentário

A Associação dos Magistrados Brasileiros realizou também o pré-lançamento do livro-reportagem “Diário de um Resgate”. A obra conta os detalhes da maior operação internacional de acolhimento humanitário para salvar as juízas afegãs marcadas para morrer pelo regime Talibã. Na luta pela vida, a AMB e as magistradas afegãs se cruzam numa história inédita de superação. A entrega do livro será realizada em dezembro.

Deusa da Justiça

Durante a solenidade, a AMB também prestou homenagens às mulheres eleitas aos principais cargos da mesa diretora do Tribunal de Justiça (TJ-TO) para o biênio 2023/2025. As desembargadoras Etelvina Maria Felipe (presidente), Ângela Maria Prudente (vice-presidente), e Maysa Vendramini Rosal (corregedora-geral de justiça eleita). Elas receberam o troféu “Deusa da Justiça” das mãos da presidente Renata Gil. “É uma honra fazer parte da AMB e ter mulheres tão inspiradoras conosco, como as juízas afegãs, que deixaram toda uma vida para trás. A magistratura não é apenas julgar. Temos uma responsabilidade social imensa e é isso que estamos vendo aqui”, discursou a presidente do TJ-TO, Etelvina Maria Felipe.


Paula Andrade (Ascom/AMB)

 

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