Obra do autor britânico Aldous Huxley de 1932 é mais atual do que na época em que foi escrita, avalia especialista

Como um peixe fora da água. Essa é a sensação quando se lê um livro distópico como o “Admirável mundo novo”, do autor britânico Aldous Huxley, obra publicada em 1932, escolhida e analisada pelo Clube de Leitura da Associação dos Magistrados Brasileiros (AMB) na última quarta-feira (27). “O curioso é perceber que estamos mais próximos da realidade do livro hoje do que na época em que ele foi escrito”, provocou o professor e escritor Francisco Escorsim, especialista em literatura e palestrante do dia.

Imagine uma sociedade sem consciência crítica, sem senso de individualidade, condicionada biologicamente e psicologicamente para obedecer às leis sociais. A utopia sugerida no romance de Huxley, escritor inglês, é a necessidade da lavagem cerebral para manter a ordem dentro do coletivo. A obra ganhou o mundo por conta de suas provocações.

Aldous Huxley vivenciou a primeira guerra mundial e assistiu a transformação da União Soviética, a ascensão do nazismo e do fascismo e a chegada da segunda guerra mundial. Toda essa experiência transparece na sua obra, explicou o professor. “O admirável mundo novo é um estado de bem estar social. A primeira vista, o leitor sente esse desconforto pela realidade antinatural. Mas quando se contrapõe a realidade vivida pelos personagens selvagens, começa-se a pensar que aquele mundo novo não é tão mau assim”, comentou. “É muito difícil uma pessoa preferir viver no mundo selvagem do que no mundo novo, onde não há sofrimento”.

A comparação com a realidade presente é inevitável e foi bastante comentada pelos participantes do webinário. A busca por uma vida sem sofrimento, anestesiada, cheia de prazeres, oferecida pelas redes sociais foi destacada. “As diversas distrações que temos hoje, para nos tirar o sofrimento do dia a dia, pode ser comparada à ‘soma’, remédio oferecido aos personagens do livro quando se sentem infelizes”, analisou o magistrado do Tribunal Regional do Trabalho da 13 Região (TRT13), Alexandre Roque, mediador do debate. “É interessante observar também que esse processo de anestesia deixa as pessoas hipersensíveis ao sofrimento. Por isso vemos hoje pessoas que se incomodam e se sentem super ofendidas por falas e atitudes banais nas redes sociais. Elas sofrem e se incomodam por qualquer coisa”, completou Escorsim.

Comparar a história com a realidade, e buscar similitudes, é uma atitude natural quando se está diante de um livro distópico, explicou o especialista. “A despeito da questão das redes sociais, o mais profético que vejo no livro, para mim, é o encaixe do mundo capitalista com o mundo socialista. Vemos o caso da China como maior exemplo”, ponderou Escorsim.

O livro não traz um final definitivo sobre o que é certo ou errado. O drama do personagem principal, John, é o mesmo drama do leitor: não encontrar o seu lugar. O professor citou uma declaração de Huxley sobre seu livro no qual ele conta que se fosse reescrever a história, ofereceria uma terceira alternativa ao Selvagem. Entre as duas pontas do seu dilema, a utópica e a primitiva, estaria a possibilidade de alcançar a sanidade de espírito.


Paula Andrade (Ascom AMB)

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